QUARTA FEIRA, 01 de abril

SE NÃO HÁ FUTEBOL, VAMOS À CAÇA!

Para aqueles, como eu, que são simultaneamente adeptos apaixonados por futebol e praticantes apaixonados desse nobre desporto e actividade que é a caça - repito, para não pensarem que foi distração: desse nobre desporto e actividade - conciliar uma e outra coisa é muitas vezes um problema angustiante.

Entre 15 de Agosto, quando abre a época de caça, para rolas e pombos bravos, e meados de Fevereiro, quando fecha para todas as espécies, excepto a praga de javalis, os calendários do futebol e da caça sobrepõem-se e, não só afastam os caçadores verdadeiramente dedicados dos estádios, como até, muitas vezes, os impedem também de seguir os jogos pela televisão.

É verdade que a caça decorre de manhã ou ao princípio da tarde e os jogos ao fim da tarde ou à noite, mas nessas horas os caçadores estão ocupados, ou nos seus sagrados almoços de fim de jornada, que se prolongam tarde fora, ou no penoso regresso a casa. E mesmo quando de véspera jantamos num restaurante local ou dormimos no hotelzinho da terra, não é certo que lá iremos encontrar um televisor com o canal que transmita o jogo que queremos ver.

Agora, porém, passa-se o inverso: nem uma coisa, nem outra. Já que não há futebol, podíamos ir à caça sem pensar no assunto, mas, não só a época já fechou, como estamos aquartelados em casa, literalmente com armas e bagagens; e, já que não podemos ir à caça e estamos forçados a ficar em casa, podíamos ao menos encher a barriga a ver futebol, sem correrias nem sobressaltos, só que...também não há futebol. Eis o círculo ocioso perfeito.

E, pois, não havendo futebol sobre que escrever, resolvi maçar os leitores escrevendo sobre caça. Com isso, engano alguma nostalgia da liberdade e dos espaços livres que já nos vai a todos invadindo e recordo que, como escreveu alguém por estes dias, «afinal, éramos felizes e não sabíamos». Eu, por acaso, sabia: nunca tive uma dúvida sobre isso. E, em grande medida, devo-o aos quase vinte anos de caçador que levo e cujos grandes e numerosos momentos de felicidade ninguém me pode já tirar.

Deixem-me, então, começar por recordar um episódio que liga a caça com o futebol e que para mim será para sempre inesquecível, pois que junta um dos melhores momentos da história do meu clube com um dos melhores tiros que dei na minha vida.

Passou-se em Balanches, perto de Mértola, um território sagrado da perdiz vermelha, um couto gerido com paixão e sabedoria ímpar pelo Zé Carlos M. À mesma hora da manhã em que saímos para caçar, nesse sábado de 2005, a 12.000 kms de distância e doze horas de diferença, em Tóquio, o FC Porto jogava a final da Taça Intercontinental contra o Once Caldas. Vencendo, conquistava pela segunda vez no seu historial o título de campeão do mundo de clubes, a juntar ao título europeu, ganho no ano anterior, em Gelsenkirchen - uma proeza hoje inimaginável para um clube português. Disso mesmo eu não tinha então dúvidas: que dificilmente voltaria a ter oportunidade de voltar a viver um momento daqueles em dias da minha vida. Nunca o dilema da escolha entre a caça e o futebol foi tão lancinante: estava uma manhã linda, perfeita; uma batida de poucos caçadores e todos amigos, que eu sabia que o Zé Carlos tinha, como sempre, superiormente organizada; e, lá, ocultas entre as estevas, estavam as perdizes selvagens mais desafiantes da Europa, capazes de voar a 120 kms/hora, lançadas de um morro abaixo e com o vento por trás. E lá longe, em Tóquio, os onze homens vestidos de azul e branco do meu clube pareciam gritar-me: «O quê, vais ser capaz de nos ignorar agora?» E fui mesmo.

Durante quase duas horas, nos intervalos entre cada enxota, quando mudávamos de posição no terreno, eu vinha a correr até uma carrinha pick-up, que seguia na rectaguarda do grupo, com a função de arrecadar as perdizes mortas, e em cujo rádio fanhoso conseguia-se escutar o relato do jogo, subindo à elevação mais próxima. O jogo arrastava-se com 0-0, os outros só defendendo e o Porto perdendo sucessivas oportunidades de golo: mau agoiro!. Tudo menos penáltis, suplicava eu! E lá voltava para a caça. Doido de ansiedade, sabendo que o jogo já devia estar a terminar e desconhecendo o resultado, vejo vir uma perdiz na minha direcção, lá no alto - no céu, mesmo. É o tiro mais difícil e, logo, o mais bonito: assim que se levanta a arma para apontar, a perdiz começa a subir ainda mais, tornando muito mais complicado o triplo cálculo que é necessário fazer numa fracção de segundo, calculando a direcção do voo, a distância e a velocidade. «Vai altíssima!»- exclamou à minha esquerda o Eduardo R., quando me viu levantar a arma. De facto, era perdiz para deixar passar. Mas suspeito que acreditei que naquele tiro podia estar o remate que daria o título de campeão do mundo ao Porto, lá longe, em Tóquio. Metia-a em mira, corri a mão por brevíssimo instante e, depois, como me ensinaram, dei o golpe de chicote, puxando a espingarda à frente do alvo no momento de disparar. Foi em cheio: morreu imediatamente em pleno voo, baixando logo a cabeça por completo, sinal de «morte redonda», como dizemos, mas, com o balanço que levava, foi cair alguns 60 metros atrás de mim. Logo depois, terminou a enxota e nem me detive a escutar com a devida atenção os cumprimentos do Eduardo por aquele inesquecível tiro. Parti a correr, apanhando aquela perdiz pelo caminho, e só parei junto à carrinha: estavam justamente a começar os meus tão temidos penalizes. Ajoelhei-me ao lado da porta do condutor e segui aqueles minutos em sofrimento absoluto. Ouvia-se mal e com interrupções, o que ainda tornava o dramatismo maior. Até que chegou o penálti a cargo de Pedro Emanuel, que, se entrasse, acabava com aquela agonia. «Meus Deus, o Pedro Emanuel, não!», pensei para comigo. E não é que ele marcou! Minutos depois do meu tiro, aquele tiro em Tóquio! Afinal, conseguira fazer o dois em um: campeão do mundo e uma manhã de caça deslumbrante, com um tiro que nunca irei esquecer.

estadio_futebol

Mas a caça é mais, muito mais do que uma simples manhã ou uma tarde atrás de perdizes, coelhos, lebres ou pombos. É sobretudo, um grande encontro de amigos e um excelente pretexto para estar com amigos. Quando eu comecei, só ou quase só homens, hoje em dia, já se vai vendo mulheres também - o que não trouxe qualquer embaraço às conversas porque, curiosamente, se há tema de que os caçadores homens nunca falam é de mulheres. E, claro, nada melhor do que a mesa para esses encontros de amigos - e, sobretudo, os almoços no final da caçada. Nesse aspecto, aliás, Balanches não tem rival que eu conheça: come-se lá como em nenhum outro encontro de caça. As mulheres da família cozinham como deusas e nos bons tempos havia ainda a tradição de os próprios caçadores fazerem, de quando em vez, o gosto à mão, mostrando as suas habilidades na cozinha. Eu aventurei-me umas duas vezes, numa delas levando à cozinha de Balanches a receita algarvia da canja de ameijoas. Mas nesse dia em Balanches, para que tudo fosse ainda mais inesquecível, aconteceu que o Eduardo, justamente, ficara a  saber na véspera, à chegada lá, que ganhara um segundo prémio no Euromilhões. Não foram milhões, nem muitos milhares, mas uma quantia suficientemente simpática para logo o desafiarmos a oferecer uma rodada de lagosta para o almoço do dia seguinte. E aquele generoso benfiquista não disse nem que sim, nem que não: enquanto dormíamos, mexeu os seus contactos, levantou-se de noite ainda, foi ao encontro das lagostas não sei onde, voltou e deu-lhes um primeiro entalanço antes de sairmos para a caça. De modo que, quando nos sentámos naquela democrática mesa de Balanches, onde se senta toda a gente que participa em qualquer função que seja numa jornada de caça, fomos recebidos com uma caldeirada de lagosta.

Claro, nem todos os dias de caça foram tão sumptuosamente felizes como este, talvez nenhum mesmo. Mas todos, tanto quanto me lembro, foram dias felizes ou, se o não foram, não foi por culpa da caça. Mesmo debaixo de chuva implacável, molhado até aos ossos, de um frio de sepultar mortos ou de um calor de inferno nas rolas de Agosto, acho que nunca vivi um dia infeliz na caça. Como todos os caçadores, e mesmo sem precisar de recorrer às célebres invenções da espécie, vivi histórias tão hilariantes umas, tão inverosímeis outras, estive em sítios tão extraordinários a caçar, vi paisagens tão deslumbrantes, nascer do sol e pôr do sol como poucos imaginam que possa existir, que só por isso, se mais não houvesse, agradeço aos meus amigos caçadores que me pegaram esta paixão. Eu teria visto muito menos do que vi, teria vivido muito menos do que vivi, se não tivesse andado por aí, de arma na mão, a atravessar rios e ribeiros, e vales e montes e planícies sem fim. Com que direito haveria alguém de poder tirar-me esta felicidade?

Crónica de Miguel Sousa Tavares, no Jornal A Bola (edição 01/04/2020)